quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

AL BERTO, poeta português


«Afinal uma obra de arte é um todo ambíguo dado a diferentes interpretações conforme as sensibilidades e experiências de vida de quem a usufrui. Não é um estímulo pavloviano.» (Jorge PaIinhos; Introd. de Lunário, Poema polifónico – Adaptação dramática de Lunário de Al Berto.)

AL BERTO
Alberto Raposo Pidwell Tavares nasce em Coimbra a 11 de Janeiro de 1948. No ano seguinte muda-se com os seus pais para Sines, vila a que dedica sete textos na obra "Mar-de-Leva".
Devido ao seu extraordinário dom natural para a pintura, a família decide enviá-lo para a Escola António Arroio, em Lisboa.
Frequenta o Curso de Formação Artística do SNBA.
Frequenta a École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels (La Cambre)/ Peinture Monumentale (1967).
Frequentou diversos cursos de artes plásticas, em Portugal e em Bruxelas, onde se exilou em 1967. A partir de 1971 dedicou-se exclusivamente à literatura. Estreou-se com o título “À Procura do Vento no Jardim de Agosto” (1977). A sua poesia retomou, de algum modo, a herança surrealista, fundindo o real e o imaginário.
É influenciado por Malcom Lowry, William Burroughs, Genet, Rimbaud, Baudelaire, Dylan Thomas, e outros.
A obra poética de Al Berto é inseparável de uma representação heróica do poeta, ou, segundo Jorge palinhos, do seu “alter-ego” representado pela personagem Beno em Lunário.
Morre em Lisboa a 13 de Junho de 1997.

Telão pintado de vida e obra
Uma obra que se lapidou como representação de uma vida, de um autor, no sentido do poeta trágico moderno, ao estilo de Rimbaud; ou uma obra que se cruza com a vida.
Al Berto definiu poeticamente o horizonte em que se quis ver desenhado, ou seja, situou-se ele próprio, oniricamente, na realidade das suas obras. Há, na sua obra, a dificuldade de definir os limites da realidade e da ficção. Criou Al Berto os cenários pitorescos caravaggianos onde encenou a sua vida numa exuberância excessiva; exuberância essa que remete para a morte e para o sexo, e onde se cruzam imagens de mar, deserto, fogo, noite, eternidade, silêncio, corpo, aveias, sémen, paixões…
Além de ter estudado Belas-Artes, Al Berto escreveu sobre artes plásticas ("A Vida Secreta das Imagens"), usou soberanamente a fotografia como um detonador de fantasmas: os seus e os de quem se cruzava consigo nas noites boémias. A sua poesia é carregada de uma encenação dramática capaz de oscilar entre os sentidos mais eruditos e a pacatez da prosa. A prosa, por sua vez, transfigurada poeticamente, é elevada a uma espécie de condição mítica.

A época underground
O Lunário remete-nos para um mundo de sombras, de verdades, de fragmentos. A Lua, cuja importância tutelar se revela logo no título, funciona como uma metáfora especular: “Deixara o tempo erguer em seu redor um espaço sem passado nem presente, nem futuro. Estava ali esquecido de si mesmo, era tudo.” (Lunário, pag.17, Assírio e Alvim).
Os fantasmas musicais do Rock dos anos 70 percorrem a obra de Al Berto:
Lou Reed, Joy Division ou Nick Cave; Velvet Underground & Nico, Kinks, Iggy Pop, David Bowie, Lou Reed.
Estas menções musicais são os marcos que indiciam, na sua obra, uma localização temporal algures nos anos 70 (universo underground). Simultaneamente estas referências musicais funcionam como se de um coro das tragédias gregas se tratasse, sublinhando os estados de espírito das estranhas personagens deste autor.


Jorge Palinhos, de 26 anos, nasceu em Leiria e é coordenador editorial das Edições Asa. Frequentou o Curso de Português-Inglês na Faculdade de Letras do Porto.
Durante os tempos de faculdade esteve envolvido em alguns jornais, como o Letras e Imagens ou o Jornal Académico do Porto da FAP; o JUP e as edições de A PONTE. Nesta última publicação, escreveu “artigos estranhos” e de “opinião irreverente”, segundo o autor. O primeiro artigo chamou-se «O que é o Bitoque?»: “Segundo me explicaram, Bitoque é em Lisboa porque aqui chama-se prego.” - acrescenta, depois de lhe colocar-mos a mesma pergunta.
A peça “Auto da Razão”, que escrevera para o concurso Novas Dramaturgias do INATEL, valeu-lhe o Prémio Miguel Revisco.
Dos artigos que tem escrito, “o trabalho e a preguiça” é um dos que lhe vem à memória, tal como um outro que escreveu recentemente: “Tudo o que nunca quiseste saber sobre Pogonomia”, que vem editado nas páginas 48 e 49 do último número da revista literária 368.

Al Berto e o Lunário:
«A obra do Al Berto é constituída por uma sistema muito coerente, fala apenas de uma quantidade restrita de assuntos. Posso enquadrá-la dentro de um contexto neo-romântico, influenciado pela onda do neo-romântismo musical de finais dos anos 70, nomeadamente com os Velvet Undergroud. Al Berto escreveu muito poesia ou prosa poética, todavia o Lunário foi a prosa menos poética que escreveu, apesar de conter mesmo assim momentos extremamente poéticos.
A obra de Al Berto anda à volta da sua vida: a de um expatriado no centro da Europa; a da sua juventude e da sua homossexualidade. Há uma dicotomia entre o muito espiritual e o muito escatológico, que Al Berto consegue por vezes combinar no mesmo verso. Exemplo disso é o verso “as pérolas de cuspe nos pêlos do cú”, o qual define totalmente o seu estilo. A obra é habitada por imagens como as flores, a noite, o sexo, as drogas, a prostituição, os engates, os bares alternativos; imagens frequentemente referenciadas num tom popular. Uma das suas grandes referências é Baudelaire.
A adaptação
«A transferência de uma obra de um suporte para outro é uma arte de delicadeza.» (Introd. da Adaptação Dramática de Jorge Palinhos de Lunário)
«A adaptação foi um processo um pouco complexo. Na passagem de uma obra para outro tipo de representação, há sempre muito que se perde. No universo da adaptação teatral, existe sempre a opção de fazer uma adaptação literal, a de tomar o texto original como inspiração, ou a de escrever algo completamente novo. Considerei, contudo, que deveria ser o mais fiel possível ao original, na medida em que é esta a primeira adaptação desta obra. Seleccionei uma série de temas que a mim me seduziam mais e tentei ser-lhes fiel, procurando e ligando episódios, referências, frases e palavras que mais se interligavam. Ao submeter a obra ao meu imaginário, combinei o estilo do Al Berto com o meu.
A adaptação foi feita, todavia, a pensar num espectáculo; mas foi uma adaptação com liberdade, dando margem de manobra à idealizada encenação. Relativamente à parte plástica, ela aparece, ora como cenário, ora como indicação de cena ( há, por exemplo, a indicação para a personagem Beno desenhar no vidro um coração), ora no diálogo.»
O que mais o fascinou
«A memória foi a característica que mais me fascinou ao adaptar o Lunário – o modo como ela persiste na vida das pessoas. Al Berto saiu do país aos 15 anos, andou pelo centro da Europa em grandes tropelias e aventuras, voltou para Sines e lá constituiu uma espécie de “Comuna Anarco-Cultural”. Mais tarde, passou a viver sozinho numa cabana junto à Costa. Foi a partir dessa altura que desenvolveu a maior parte da sua produção literária. Toda a sua obra se baseia na sua juventude - há muito de invocação de fantasmas, de pessoas, de situações e lugares onde esteve. Para ele as recordações eram extremamente fortes, vivia mais no passado do que no presente. O Lunário tem algumas referências que talvez remetam para o presente, mas de um modo geral dá ideia que é sempre um tempo passado.»
«É possível observar a forma como a memória se torna no ponto fixo da vida de uma pessoa: há uma fase da vida muito importante para Al Berto, esta fase é o clímax. A partir daí, tenta prolongar essa fase, recolhe-se e passa a viver praticamente das memórias. Digamos que essa memória se torna numa coisa quase física para ele. Foi a partir desse ponto de vista que tentei construir a adaptação dramática. A história do Lunário começa no fim da vida de Beno, a personagem principal; depois há uma analepse, um flashback em que ele recorda todos aqueles episódios. Duvida-se se foram ou não episódios verídicos; julgo que à partida aconteceram mesmo e tornaram-se para ele simbólicos.»
«O corpo das pessoas é memória viva: as rugas, as cicatrizes, as transformações... É como se o corpo fosse o livro da vida. A maior parte das recordações que temos estão associadas aos sentidos – As recordações que tenho da infância estão muito ligadas aos sentidos - o cheiro da minha mãe a passar a roupa a ferro; o jardim depois da chuva; os sons à ida para a escola....»
As personagens
«O Beno é uma espécie de alter-ego do Al Berto, o Nému poderá ter sido um grande amor da sua vida, ou uma espécie de arquétipo de todas as relações que teve. Dá-me ideia que as outras personagens também foram reais, no sentido em que a maioria das histórias contadas me parece relativamente credível – gente que enlouquece, que se suicida, que se torna recluso e deixa de ter contacto com as outras pessoas. É possível, de outro modo, que a memória do Al Berto tenha transfigurado essas personalidades para facetas dele próprio. As personagens de Lunário - o Kid , o Nému, o Zohía, a Alva, o Silko - são recorrentes na sua obra poética. As pessoas que conhecemos acabam por deixar marcas em nós. Somos produtos da genética, da educação e da vida. »
O Neo-Romantismo
«No contexto da poesia Portuguesa, Al Berto é um caso um pouco isolado, estando muito ligado à marginalidade. Viveu sempre em Sines, arredado dos meios Literários que se concentravam no Porto e em Lisboa. Al Berto está muito ligado à década de 60, Maio de 68, ou Woodstock; movimento Hippie , mundo das drogas, misticismo e experiências alternativas.»
«Foi influenciado por um surrealismo da altura, já tardio. Ao nível da poesia, foi o surrealismo de Mário Henrique Leiria e Alexandre O`Neil que o influenciou. Em Al Berto acontece uma reminiscência do Maio de 68, ele acaba por estar à margem de tudo o que vem a seguir. É também contagiado pelas referências «mais mundanas» de Eugénio de Andrade ou Herberto Helder.»
As referências dramáticas...
«Na minha época de estudante, as influências eram outras, vinham da década de oitenta: o Movimento de Manchester, o Punk, os New Order. Esta década é quase a antítese absoluta da de sessenta».
«Uma grande referência que tenho ao nível do teatro é William Shakespeare e a obra que mais me fascina é Macbeth. É a única personagem de Shakespeare em que não há um mal absoluto, o mal existe residualmente em todas as pessoas. Outra característica peculiar nesta obra é a fragmentação do tempo - «eu vou e está feito» - o momento não existe, apenas o antes e o depois. É uma peça reaccionária, contra a modificação do poder; exprime a corrupção de personalidade. Em tempos tive a primeira cena decorada!»

«Consegui? Não sei. Mas não me julguem muito severamente. Afinal a maior virtude do luar é iluminar apenas as nossas qualidades, deixando que a noite esconda os nossos defeitos e pecados.» ( Introd. da Adaptação Dramática de Jorge Palinhos de Lunário)
Assim nos brindou o jovem homem de letras, Jorge Palinhos, com a sua simpatia numa conversa de três horas numa segunda-feira de manhã.

5 comentários:

Jorge disse...

Obrigado pela referência e boa sorte na nova pátria.

Beijos,
Jorge

Liliana Rosa disse...

Olá Jorge, que surpresa boa! Que optimo que descobriste a entrevista!! Tenho feito uma selecção das melhores entrevistas que fiz e vou publicando aqui no meu Blog!!! O interessante de se ter um espaço assim é publicar anarquicamente o que a nossa mente decide!! Alguém se interessará pelas nossas palavras.

Muito sucesso para ti também!
Liliana

Teresa disse...

Sempre gostei muito de Al Berto. Não sei neste momento o título do programa que via na televisão em que ele se mostrou até ao fim! Como eu admiro a sua força, a sua revolta interior, os seus medos, os seus encontros e desencontros...
É a 1º vez que procuro nestes sítios qq coisa deste grande homem... Nasce, neste momento em mim, o desejo de estar com ele e conhecer a sua obra e, sobretudo tentar encontrar os videos desse programa. Ajudem-me por favor!

Liliana Rosa disse...

Olá Teresa, parabéns pelo bom gosto, AL BERTO é uma leitura ótima. Para encontrar vídeos e material audiovisual pode tentar no YOUTUBE. Boa sorte na sua busca.
Um abraço.
Liliana

rodrigo disse...

Liliana:

Não consigo nada de Al Berto aqui ans livrarias do Brasil.

Poderia me ajudar a conseguir algum livro dele.
obrigado pela gentileza.

Rodrigo
rodricoara@uol.com.br