sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Lusíadas em sonhos de Betânea e meus também, pelo meu bem e pela minha nostalgia, no meu ouvido

Sonhei que estava um dia em Portugal

À toa ..
num Carnaval em Lisboa
Meu sonho voa além da Poesia
E encontra o poeta em Pessoa
A lua mingua
E a língua Lusitana
Acende a chama
E a palavra Lusíada
Na via pública
Em forma de música:
Lusíada, Lusíada, Lusíada...
Anda Luzia, pega o pandeiro e cai no carnaval

Anda Luzia, que esta tristeza te faz muito mal.

Pó de arroz, um arroz com gorgulho talvez, embalo para um pensamento pueril

Quando a idade é de descoberta e se ganha, num dia após o outro, a noção de paz, proximidade com o universo e consciência de "tábua rasa".  Essa idade é a pueril, aquela que nos embala de uns anos para os outros e que nos fica na memória e na pele como esse pó-de-arroz de Carlos Paião me ficou assim num eco no meio do vento daquele lugarejo. É um para sempre jovem, para sempre lindo, para sempre pueril na memória, tocando "na veia" depois.

Enquanto essa música lembrar uma geração sequiosa de emoção e nostalgia, esse tempo ficará no nosso de hoje como um tempo de cerejas, efémero mas um tempo que deu à luz. E esse Carlos sempre me lembrou o meu padrinho e fica assim me parecendo ele sempre!(Risos) Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=zgU3jCmcpPc&NR=1

Ou numa versão mais moderna de Tiago Bittencourt: http://www.youtube.com/watch?v=G-tX__ehE8c&feature=player_embedded

Pó de Arroz,

Na face das pequenas
Será beleza apenas, só
Uma corzinha com

Pó de arroz
Rosa é, mulher o pôs
E o homem vai nas cenas

Eva e Adão outra vez
É como enfeitar um embrulho
Arroz com gorgulho talvez

Pó de arroz
Do teu arrozal
Esse pó que é fatal
És a tal que me encanta com

Pó de Arroz
Não faz nenhum mal
É de arroz integral
Infernal, quando chegas com

Todo o teu arroz

Pó de Arroz
Tens hoje só pra mim
Pós de perlimpimpim
És um arroz doce sim

Pode ser
Um canto de sereia
Serei a tua teia
E tu serás meu algoz
Mas quando te vais alindar
Alindada vens dar no arroz

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

E eu um índio pronto para as flechas, canção para vagalumes no sertão.

Mais um Ednardo no meu ouvido. Uma descoberta. Para ouvir a qualquer hora, para cantar ou ficar em silêncio e só acenar afirmativamente. Sim eu quero.


Rainha preta do maracatu
Nesse teu rosto de falso negrume
Morre de gozo na renda do sol
No pano feito pelos fios d'água
Desse véu de noiva: bica do Ipú

Como uma princesa sertaneja e aflita
Num gosto vivo de suor e sal
Te entregarás em meus braços rijos
De sangue luz e de sabor letal

E eu um índio pronto para as flechas
Dos arcos tesos de uma caçada incerta
Monto no sopro do aracati
Tonto de espanto, de amor e cauim
Sou nau sem rumo
Em teu ardor imerso

E eu serei cego, como um violeiro cego
Que enxerga a vida sensitivamente
E tem na pele um olho mais agudo
Que o meu punhal de ponta
Em teu corpo quente.


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Antropologia visual de João Cesar Monteiro.


João César Monteiro das Neves nascido na Figueira da Foz a 2 de Fevereiro de 1939, foi um cineasta português. Integrou o grupo de jovens diretores que se lançaram no movimento do Novo Cinema português. Irreverente e imprevisível, fez-se notar como crítico mordaz de cinema nos anos sessenta, como realizador, ele prossegue a tradição iniciada por Manoel de Oliveira no "Acto da Primavera", ao introduzir no cinema português de ficção o conceito de antropologia visual. "Veredas e Silvestre" é um exemplo desse movimento amplamente explorado no documentário por outros cineastas portugueses como António Campos, António Reis, Ricardo Costa, Noémia Delgado e, recentemente, Pedro Costa.


Un paysan dans les nuages, "um qual carapuça" das gândaras.


Um segredinho, "qual carapuça", é antes algo que só pode ser notado a "olhos vistos" se cair na alçada do povo e se nos lembrarmos de detalhes. Mas certas coisas o povo não quer que a gente saiba. Um dia assisti ao nascimento de dois cabritos, minha mãe foi a parteira, com sua visão de sábia, ela perfurou o saco das águas e os bichinhos nasceram. Depois lembro-me deles andando em cima no murinho estreito do poço de rega perto da eira. Outro episódio igualmente "retalho de minha mente" foi uma galinha poedeira que engoliu demasiado milho de uma vez só vez... A quantidade atravessada em sua garganta impedia-a de respirar, estava sufocando, estava agonizando! Minha mãe ou minha minha avó, uma das cirurgiãs de serviço, abriu o pescocinho do bicho e retirou o excesso atravancado em sua garganta. De seguida fechou o golpe com linha de costura e a ave sobreviveu. Essa ainda pôs muitos ovos mas cacarejar,"lavado seja Deus", isso seria pedir muito. Lembro-me de apanhar morangos verdes do quintal, amoras silvestres, figos no tempo deles, uvas para pisar, ameixas e laranjas. E tanta gente tem um laranjal e passa horas à sombra na conversa e comendo laranjas porque o mais penoso nestas tardes é apanhar batatas num sol escaldante..."Amar a dor" ou "amardor" como queiram chamar a esta preposição gândareza, eis a questão. De vez em quando é bom lembrar certas façanhas.

Diz à terra que não coma as tranças do meu cabelo.

"Aproxima-se o momento em que com a ajuda do fogo subirei éter aquilo a que chamais morrer e que vos enche de terror" assim falava a filha do grande Indra no Sonho de Strindberg. E assim começou.
As idéias começaram a ferver durante épocas de frio e de gelo. Giestas e videiras em flor sempre na minha cabeça. Quando num baile assim sem querer estar ali, um desconhecido que conhece o teu anseio de sair, te convida para dançar e tu sais. Tu sais dali. Sais de repente, sem razão e sem culpa. Não era esse, era outro, pensas sem querer ficar. E eu sigo como se fosse hoje como se fosse ontem e como se o amanhã tardasse e as flores caem, as folhas caem e o mundo se veste de novo com seus vestidos de noite. As oliveiras amadurecem, os seus frutos que rendem o melhor dos nectares se dividem em veios e correm de um rio para o outro.

E assim se começa o dia com um "Ai Solidom" no ouvido.
"Se passeares no adro - ai solidom solidom
no dia do meu enterro - ai ai ai ai ai
diz á terra que não coma - ai solidom solidom
as tranças ao meu cabelo - ai ai ai ai ai
Ó bonequinha agora agora, ó bonequinha
ó bonequinha agora já
se te apanhasse aqui sozinha, ó bonequinha
dava-te um beijo na carinha,
ó bonequinha, ó bonequinha.
A Oliveira se queixa,
se queixa e tem razão,
que lhe comem a azeitona,
deitam-lhe a folha ao chão." na voz de Dulce Pontes
Para ouvir e se deleitar: http://www.youtube.com/watch?v=_L02bGa9bdA&feature=PlayList&p=3B3E15C53A89F0B9&playnext=1&playnext_from=PL&index=15

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Cena da Cidade: A cena que aos poucos acontece na cidade maravilhosa!

A Cena da Cidade é um "movimento" que aos poucos se está construindo aqui no seio da cidade. As companhias comparecem no espaço e se reúnem para "resolver" o que ainda levará anos. A cidade está carente de manifestações de arte e movimentos de união entre artistas. O teatro que é uma arte de união pode dividir por classes, por lobis, por castas mais variadas e os artistas "os só teatrais" continuam a ser vistos como seres eremitas em busca de algo que não faz jus à necessidade do público que, por sua vez, tem sede de novas linguagens mas não as acha registradas em outdoor.
E o que é A Cena da Cidade?
"Há dois anos, o IBAM (Instituto Brasileiro de Administração Municipal) abraçou uma iniciativa da atriz e produtora Natasha Corbelino e passou a fomentar as artes cênicas no Rio de Janeiro abrindo seu espaço para ensaios, trocas culturais, debates e apresentações. Nascia A Cena da Cidade, uma incubadora de projetos que abriga trimestralmente o trabalho de 20 grupos e artistas, com demonstrações mensais dos processos – gratuitas e abertas ao público." “Além do incentivo às artes, nosso objetivo é contribuir para o desenvolvimento local. Queremos referenciar a produção cultural no âmbito profissional de seu momento histórico; na formação da vida das pessoas para além da simples relação de palco e platéia; no plano das idéias, das experiências de vida e de suas múltiplas possibilidades; e no campo do imaginário humano e da renovação da sociedade em que vivemos”, explica Felippe Rosenburg, responsável pelo programa cultural do IBAM, que também inclui um programa de música erudita, existente há 37 anos.(...) Extraído do site  http://www.acenadacidade.com.br/

O diretor na mira de um Teatro Grego.


"A Cena precisa de Cidade"
"Quem faz teatro à vera já sacou: o teatro é o mundo; o mundo é teatro. É o primórdio do teatro que nos diz: a tragédia grega surgindo junto com a idéia de democracia, a cidade sendo seu tema. O grande monumento à consciência humana é ao mesmo tempo (e não por coincidência) a elegia máxima ao teatro: Hamlet. Que aos olhos do Homem todo mundo é cena, inclusive quem o olha, sendo, por isso mesmo, muito mais que seu voyeur: é ator. Todos nós somos. O mundo é eterna construção. É escoadouro de todos os mundos que o homem inventa. Palco nu, sempre refeito. Particularmente, só consigo olhar as coisas dessa forma. Não por que sou um homem de teatro, mas antes por ter me tornado um em razão de ser a única forma que percebi de reação ao mundo. Ser homem é ser mídia. Existir é comunicar-se. Na verdade as grandes revoluções são geradas por esse princípio. O Homem inventou a roda, lembram? O que seria de Roma se todos os caminhos não levassem até ela? E como entender a revolução industrial alheia à sua premissa fundamental de aproximar, codificar o mundo pelo que produz? O petróleo não conta? Tudo muda pelo que lhe chega. E por favor não me digam que a comunicação à bala, entre bombas e fuzis, não é extremamente eloquënte nestes tempos de paz. No coração de nossa Idade Mídia.Teatro é a contramídia pois é quando o mundo se faz naquele instante. Ação comum: comunicação. Sem intermediários. O mundo é aquele que é feito, não apenas o que nos dizem ser. O mundo, gente boa, é o que a gente inventa. Sinto muito por todos que já se foram. Mas não me digam que dois e dois são quatro enquanto homens matam homens de todos os modos possíveis – poética e fisicamente falando. Não percamos de vista nossa reserva mais preciosa: o Homem. É preci(o)so que nos encontremos. Falar de homem para homem: teatremos. Teatro, ao menos para mim (e para um bocado de gente mais), não é simplesmente linguagem da arte: é lugar. O verdadeiro Second Life para onde converge a produção emotiva, sensível e imaginária do mundo, exprimida pelo ardor da presença, pelo corpo fugaz do encontro, pela beleza e brevidade do instante. É o que temos, e botamos para florir. Teatro bom mesmo corresponde a fazer um país, como canta a Marina Lima. Um país dentro dum país, construído pela beleza do encontro criativo, que não vampiriza, que não se amesquinha pelas relações de poder. Contra a presença do poder, minha gente: o poder da presença. Em tempos virtuais, casar cena com cidade chega a ser mesmo uma necessidade expressa. Este conjunto de novos grupos teatrais no Rio dispostos a não se bastarem com o gueto me enche de esperança. Totem de uma civilização, o velho e sempre novo Rio de Janeiro anda um bocado massacrado à sombra do medo e da cultura televisiva, que no final das contas não pertence a ninguém, mesmo estando em toda parte. Mas a cidade segue em frente, acirrada pelo seu não diálogo consigo mesma. É maior, mas fissurada como está não pode provar do sumo concentrado do que ela é. E o Rio é, antes de tudo, uma cidade brasileira. Vinda do Brasil maior, para além das telas e do desespero. Que a gente inclua o Rio no mapa do Brasil real, ao qual pertenço e não me canso de penetrar. Vida longa aos novos grupos! Ao encontro! Ao estar unido! À cidade! E à cena, Que, queira Baco, promete novos passos na terra de São Jorge!" por Thiago Arrais