quarta-feira, 14 de abril de 2010

O velho Rosa centenário

Parabéns, avô, pelos 100 anos. Era este ano o prazo para as 100 velinhas mas o velhinho não quis mais esperar e partiu dias antes...
Já me lembro dele velho. Vinha empoleirado numa bicicleta que era seu principal meio de transporte, com ela rodava quilómetros. Tinha também uma bela charrete de burros que lhe valia para dar conta de todos os pedacinhos de terra. Morava no centro de Quiaios, numa ruelinha bem movimentada cheia de casinhas coladas umas nas outras. Conhecido como Zé Rosa e só, sem outros nomes ou apelidos e casado com Maria Gil, também sem outros nomes. Chegava na Gestinha de bicicleta, queria saber dos netos, do filho perdido por alhures e nos trazia sempre qualquer coisa que fosse para os 3. Também me lembro das cabras, eram muitas e depois de servirem de banquete, em Quiaios viravam um sumptuoso tapete. Assim eram ornadas as casas com tapetes e também com os chifres.
Lembro do seu linguajar com as cabras e com os burros. Às vezes parecia que falava a língua dos bichos e o seu próprio sotaque adquiria aquele vibrato dos sons desses animais que ele lidava. Isso quando conversava connosco. (Quem conhece a recolha de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça, entende do que falo.)
Quando sorria era o meu pai chapado, que por sua vez é meu irmão chapado. Quase se adivinha como o velho era em novo. A última vez que o vi, há uns anos, ainda andava de bicicleta e fazia ginástica diária! Não era uma bicicleta qualquer, era uma bicicleta estática adaptada, era um instrumento moderno mas de spinning do seu tempo: as rodas não chegavam ao chão, flutuavam num adaptador em madeira. Devia ser assim em 1910. A ginástica era feita num corrimão onde se estirava. Todos os dias o velhinho de quase 100 cumpria essa rotina e ainda cuidava de sua esposa há anos deitada no seu leito em "sono profundo". Exemplificou-nos como conversava com a velhinha, como cuidava dela com a dedicação de um eterno Romeu que não se deixou envenenar mas velou sua Julieta até às suas últimas. Na minha cabeça ele iria esperá-la para se despedir, infelizmente esperou demais e ela resolveu resistir mais tempo. Esse homem sim, pode se vangloriar de missão cumprida! Chegou nos três dígitos e ainda cumpriu sua love story até ao fim do seu fim.
Contam-se mais de uma dezena de netos e outra dezena de bisnetos contando com a minha que conheceria este ano. Havia a lenda de que o velhinho guardava muitos marréis e escudos no colchão e era sabido que seu filho fazia fogueiras com suas roupas. Cousas e lousas! Deus o tenha.

PS: Obrigada pelas rosas no nome! Uma herança bonita que o velhinho nos deixou. Eu e meus irmãos formamos um bouquet! (rs)

4 comentários:

Rodriguez disse...

e que belo bouquet! para uma bela jarra! :-) Parabéns pelo bonito texto...

Liliana Rosa disse...

Obrigada pela simpatia, Paulo. Tenho muitas saudades tuas, da Daniela e da nossa malta toda!
Bjinhos

luciarosap disse...

dos mais belos textos que já li: Obrigada
beijos
Lúcia Rosa

Liliana Rosa disse...

Olá prima! Agradeço a visitinha e o comentário simpático! Beijinhos e tudo de bom para vocês!