sábado, 1 de maio de 2010

Rosas para Maria Gil

E ele veio buscá-la. Também me lembro bem dela, lembro da imagem de mulher vivida, austera e meiga o quanto baste. Lembro-me da cozinha cheia de lenha para o borralho e dos mochos de tronco maciço de madeira espalhados pelo cómodo para as visitas se acomodarem. Na Páscoa tinha sempre para oferecer um folar ou umas amêndoas. Ela era o pilar e os alicerces, era quem sustentava a casa para que o velho Rosa pudesse guardar seus tostões - isso diziam as bocas do povo. Meu pai tem os olhos dela, bem escuros e um tanto-quanto tristes.
Vivia conforme a vida podia, imagino que em moça sonhasse com belos vestidos, com casas fartas. A sua era humilde mas calorosa e tinha sempre alguma coisa na fogueira a ferver. Dos factos, rodeada de filhos, três filhas mulheres e dois filhos homens, um se perdeu de vista para os lados da França, o outro se isolou desde cedo no seu mundo particular e restaram as três que, como mulheres efectivamente, sempre deram mais valor à progenitora guerreira.
Ele se foi no dia 8, ela se foi no dia 26, entre as duas idas vão apenas 18 dias. Para quem crê, ele foi primeiro e veio buscá-la depois, para a libertar da convalescência. Assim dizem, os que crêem, que os mortos voltam para buscar as pendências. Por outro lado, ela pode também ter esperado o limite dele para poder descansar. Um estava dependente do outro e esse vínculo era muito profundo. Quando a vi pela última vez, cativa do sono, ela respondia quando o velhinho Rosa gritava o seu nome. Não se sabe por que artes caiu numa cama assim de uma vez, como foi, desde quando e porquê...apenas que estava doente e foi ficando e foi se entregando inerte àqueles anos... e anos de convalescência. Ali foi ficando e foi envelhecendo mais ainda, velada sob o olhar cuidadoso do velhinho Rosa. Afinal Shakespeare não escrevia apenas mitos, toda a história de amor tem um fundo real e atemporal.
Marias portuguesas sempre foram mulheres fortes e austeras. Se eu pudesse compará-la com a minha outra avó que nem conheci (em comum o nome Maria) lhes dedicaria uma música de Zeca Afonso que tem tudo a ver com elas:
"As sete mulheres do Minho, as sete mulheres do Minho
Mulheres de grande valor, mulheres de grande valor
Armadas de fuso e roca, armadas de fuso e roca
Correram com o regador, correram com o regador
Que da foice fez espada, que da foice fez espada
Há-de ter na lusa história, há-de ter na lusa história
Uma página doirada, uma página doirada
Viva a Maria da Fonte, viva a Maria da Fonte
Com as pistolas na mão, com as pistolas na mão
Para matar os cabrais, para matar os cabrais
Que são falsos à nação, que são falsos à nação."

Deus a tenha e não será esquecida! Mais uma vez eu e meus irmãos ficámos esquecidos, ninguém nos avisou a tempo de nos despedirmos dos nossos avós! Ninguém se lembrou que somos netos. Eu nem podia ir me despedir porque me encontro exilada neste trópico, mas meus irmãos poderiam prestar a última homenagem por mim. Deixar um beijo, um abraço, uma lágrima que fosse.
E assim foi, em Abril, juntos e de mão dada, se libertaram os veios fortes das velhas raízes da nossa árvore genealógica paterna e partiram para um lugar melhor. Olham por nós de lá de cima.