sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Pó de arroz, um arroz com gorgulho talvez, embalo para um pensamento pueril

Quando a idade é de descoberta e se ganha, num dia após o outro, a noção de paz, proximidade com o universo e consciência de "tábua rasa".  Essa idade é a pueril, aquela que nos embala de uns anos para os outros e que nos fica na memória e na pele como esse pó-de-arroz de Carlos Paião me ficou assim num eco no meio do vento daquele lugarejo. É um para sempre jovem, para sempre lindo, para sempre pueril na memória, tocando "na veia" depois.

Enquanto essa música lembrar uma geração sequiosa de emoção e nostalgia, esse tempo ficará no nosso de hoje como um tempo de cerejas, efémero mas um tempo que deu à luz. E esse Carlos sempre me lembrou o meu padrinho e fica assim me parecendo ele sempre!(Risos) Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=zgU3jCmcpPc&NR=1

Ou numa versão mais moderna de Tiago Bittencourt: http://www.youtube.com/watch?v=G-tX__ehE8c&feature=player_embedded

Pó de Arroz,

Na face das pequenas
Será beleza apenas, só
Uma corzinha com

Pó de arroz
Rosa é, mulher o pôs
E o homem vai nas cenas

Eva e Adão outra vez
É como enfeitar um embrulho
Arroz com gorgulho talvez

Pó de arroz
Do teu arrozal
Esse pó que é fatal
És a tal que me encanta com

Pó de Arroz
Não faz nenhum mal
É de arroz integral
Infernal, quando chegas com

Todo o teu arroz

Pó de Arroz
Tens hoje só pra mim
Pós de perlimpimpim
És um arroz doce sim

Pode ser
Um canto de sereia
Serei a tua teia
E tu serás meu algoz
Mas quando te vais alindar
Alindada vens dar no arroz

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Antropologia visual de João Cesar Monteiro.


João César Monteiro das Neves nascido na Figueira da Foz a 2 de Fevereiro de 1939, foi um cineasta português. Integrou o grupo de jovens diretores que se lançaram no movimento do Novo Cinema português. Irreverente e imprevisível, fez-se notar como crítico mordaz de cinema nos anos sessenta, como realizador, ele prossegue a tradição iniciada por Manoel de Oliveira no "Acto da Primavera", ao introduzir no cinema português de ficção o conceito de antropologia visual. "Veredas e Silvestre" é um exemplo desse movimento amplamente explorado no documentário por outros cineastas portugueses como António Campos, António Reis, Ricardo Costa, Noémia Delgado e, recentemente, Pedro Costa.


Un paysan dans les nuages, "um qual carapuça" das gândaras.


Um segredinho, "qual carapuça", é antes algo que só pode ser notado a "olhos vistos" se cair na alçada do povo e se nos lembrarmos de detalhes. Mas certas coisas o povo não quer que a gente saiba. Um dia assisti ao nascimento de dois cabritos, minha mãe foi a parteira, com sua visão de sábia, ela perfurou o saco das águas e os bichinhos nasceram. Depois lembro-me deles andando em cima no murinho estreito do poço de rega perto da eira. Outro episódio igualmente "retalho de minha mente" foi uma galinha poedeira que engoliu demasiado milho de uma vez só vez... A quantidade atravessada em sua garganta impedia-a de respirar, estava sufocando, estava agonizando! Minha mãe ou minha minha avó, uma das cirurgiãs de serviço, abriu o pescocinho do bicho e retirou o excesso atravancado em sua garganta. De seguida fechou o golpe com linha de costura e a ave sobreviveu. Essa ainda pôs muitos ovos mas cacarejar,"lavado seja Deus", isso seria pedir muito. Lembro-me de apanhar morangos verdes do quintal, amoras silvestres, figos no tempo deles, uvas para pisar, ameixas e laranjas. E tanta gente tem um laranjal e passa horas à sombra na conversa e comendo laranjas porque o mais penoso nestas tardes é apanhar batatas num sol escaldante..."Amar a dor" ou "amardor" como queiram chamar a esta preposição gândareza, eis a questão. De vez em quando é bom lembrar certas façanhas.

Diz à terra que não coma as tranças do meu cabelo.

"Aproxima-se o momento em que com a ajuda do fogo subirei éter aquilo a que chamais morrer e que vos enche de terror" assim falava a filha do grande Indra no Sonho de Strindberg. E assim começou.
As idéias começaram a ferver durante épocas de frio e de gelo. Giestas e videiras em flor sempre na minha cabeça. Quando num baile assim sem querer estar ali, um desconhecido que conhece o teu anseio de sair, te convida para dançar e tu sais. Tu sais dali. Sais de repente, sem razão e sem culpa. Não era esse, era outro, pensas sem querer ficar. E eu sigo como se fosse hoje como se fosse ontem e como se o amanhã tardasse e as flores caem, as folhas caem e o mundo se veste de novo com seus vestidos de noite. As oliveiras amadurecem, os seus frutos que rendem o melhor dos nectares se dividem em veios e correm de um rio para o outro.

E assim se começa o dia com um "Ai Solidom" no ouvido.
"Se passeares no adro - ai solidom solidom
no dia do meu enterro - ai ai ai ai ai
diz á terra que não coma - ai solidom solidom
as tranças ao meu cabelo - ai ai ai ai ai
Ó bonequinha agora agora, ó bonequinha
ó bonequinha agora já
se te apanhasse aqui sozinha, ó bonequinha
dava-te um beijo na carinha,
ó bonequinha, ó bonequinha.
A Oliveira se queixa,
se queixa e tem razão,
que lhe comem a azeitona,
deitam-lhe a folha ao chão." na voz de Dulce Pontes
Para ouvir e se deleitar: http://www.youtube.com/watch?v=_L02bGa9bdA&feature=PlayList&p=3B3E15C53A89F0B9&playnext=1&playnext_from=PL&index=15

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

"O Cirquinho de Luísa" no Teatro Cândido Mendes!


Nosso Cirquinho continua na sua bela rotina de final de semana com a criançada pré infantil, os bebês mais lindos do mundo frequentam o espaço sagrado desse Teatro tão acolhedor como nossa própria casa. Para conferir e levar seu bebê, de 06 meses a 06 anos, o espetáculo está em cartaz todos os sábados e domingos, às 15 horas no Teatro Cândido Mendes, Ipanema!

É tempo

É tempo de agir sobre nós e sobre o mundo. O espaço entre aqui e ali é curto, o contato com o que nos faz estremecer de prazer é muito fugaz. Há que fazer valer o que a experiência nos ensina, o que a idade se cansa de nos chamar a atenção. E essa roleta gigante gira e se lhe perdemos o rasto ela gira cada vez mais veloz e mais brilhante e nós apagados no chão.
Um help qualquer sempre ajuda, mas este é brilhante, viva os monstros da pop:


"Hoje faço 99 anos" by Liliana Rosa, 2002

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Nirvana de Miguel Torga



Anteriormente me defini amante de Miguel Torga, me considero sua fiel confidente já que li seus diários afincadamente e há poemas ainda que me habitam um dos lados do cérebro, como é o caso de Nirvana. Quando alguém me fala em montanhas, vem-me imediatamnente à boca o poema inteiriço sem que eu o queira declamar (mas apenas ouvir com a minha voz, para o considerar meu) e vai até ao fim sem que eu o possa parar: "Asas nos pés e o céu desnecessário" e ponto final.

"Paz nas montanhas, meu alívio certo.

O girassol do mundo, aberto,
E o coração, a vê-lo, sossegado.
Fresco e purificado,
O ar que respira.
Os acordes da lira
Audíveis no silêncio do cenário.
A bem-aventurança sem mentira:
Asas nos pés e o céu desnecessário."
Diario VII de Miguel Torga