Quero-te dedicar uma ou duas letras
Quero-te ver de olhos fechados ou entreabertos
Quero-te quando choras e quando ris
Quero-te a brindar e também quando não
Quero-te e só
Quero-te no meu colo
Quero-te em aquarelas
Quero-te...e ficas para sempre no meu canto esquerdo
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sexta-feira, 29 de abril de 2011
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Terra na ferida
Agarra-te aqui, não me largues. Caminharemos pela borda e o carreiro vai nos levar ao sítio certo. Se caíres não abrandes o passo, joga terra na ferida. Doem-me as pernas mas o coração está mais preso do que antes e pesa mais deste lado. O frio faz-me contorcer os músculos das mãos quando digo adeus e não quero dizer adeus. Há dias que respiro eucaliptos e ao longe nem vejo nada, a vista está cerrada pelos milhos. Antes fossem para freiras esses milhos festeiros que se assam ainda novos. Cortados os milhos e de volta a vista, mais um ano de terra aberta para sol e chuvas e sémen de plantio. Entre elas, valas abertas por onde a gente caminha e agarra-te a mim porque às vezes tenho terra nos olhos. LR
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Portugal de sempre
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Tamanha garganta rouca
"Sou tua como o luar é da lua como as pedras são da rua desde o dia em que eu nasci. Sou tua tão tua que me convenço que já nem a mim pertenço que sou um pouco de ti."
É desse fadinho que falo mas seria dele que viriam as palavras com que se sussurram às orelhas moucas? Nem lhe sei o autor. Loucos os que não querem ouvir ainda que roucas as gargantas que olham para o chão quando cantam dessas palavras juntas. Livrar-me dela seria mentir a mim. Ainda não tenho idade para mentir nem esconder, sou da fase dos que falam e dão sinais e apertam contra a parede, nada mais fica no escuro nem no mote. O sol é bom demais para se esconder e a música é para quem a ouvir.LR
É desse fadinho que falo mas seria dele que viriam as palavras com que se sussurram às orelhas moucas? Nem lhe sei o autor. Loucos os que não querem ouvir ainda que roucas as gargantas que olham para o chão quando cantam dessas palavras juntas. Livrar-me dela seria mentir a mim. Ainda não tenho idade para mentir nem esconder, sou da fase dos que falam e dão sinais e apertam contra a parede, nada mais fica no escuro nem no mote. O sol é bom demais para se esconder e a música é para quem a ouvir.LR
terça-feira, 6 de julho de 2010
Aos quatro cantos do triângulo, dedicado a Samuel Beckett
mais uns quatro dias, um deambular pela ruela do jeito e da força. caem bolas de sabão por aí e já ninguém as sopra, deu um medo de ficar sem mais quatro dias. olha como ainda perguntavam, o teu pai é careca, vejamos pelo sopro se o risco da cabeleira aparece. nada, vou negar até ao fim, diz a menina que não quer ser reconhecida, lha descobriram logo. se num quatro a gente se engana se o louco é mais bêbado do que o cocho, ou se os nossos olhos trocados na foto três por quatro azuis ou verdes o cego teima que os tem. se olhares para o nariz vais te safar da tropa mas se mentires menos também ninguém topa. de quatro em quatro enche a goela e o juízo dela. ele tinha um bigode serrado, parecia que havia engolido às pressas um arvoredo de quatro milhas e algumas das folhagens estavam ainda boiando na boca. é assim que vai a marcha de quatro e eu quero para mim esse misto de doce e acre que sobre e até derrame, esses teus quatro quadros quadrados quadriculados, esse teu gomo de vida em círculos circunflexos. vou cantar às arestas, vou soletrar os dias como tabuada, me abstrair das três partes, mais um ajuste e o brinquedo funciona.LRquinta-feira, 17 de junho de 2010
Inquieta-me soletrar uma coisa num lugar exposto
inquieta-me soletrar uma coisa num lugar exposto assim cabisbaixo pergunto posso ficar? os nomes são o que são prenúncios ressequidos, inscrições de carne, rosa ferrugenta anavalhada pela cratera exata.mesmo que nunca regressemos e mesmo que se quebre o fio de água que nos prende.
naquele tempo dizia-se fim ou ausência de paredes. LR
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Música para bebês!
Na educação musical aprende-se a ouvir, a escutar, a descobrir, a imitar, a explorar, a expressar, a criar, a sentir e a apreciar a música, esses sãos os parâmetros das aulas que decorrem sobre minha maestria em duas escolinhas da cidade maravilhosa. Com dedicação e muito amor, ensino a escutar o "dó, ré, mi" a onze turminhas irreverentes.Em cada fase, um malabarismo diferente para chamar a atenção dos pequenos e aguçar sua sensorialidade.
Num processo de construção do conhecimento, a criança aprende por observação, imitação e experimentações. O ambiente é sempre alegre, espontâneo e descontraído, há que inventar mil artimanhas para estimular esses pequenos na arte e vale muito - além das multiplos benefícios para eles - para mim também pelos sorrisinhos diários e as tiradas mais hilárias. Assim decorre meu estúdio de experimentação para mais um musical para bebês!
quarta-feira, 14 de abril de 2010
O velho Rosa centenário
Parabéns, avô, pelos 100 anos. Era este ano o prazo para as 100 velinhas mas o velhinho não quis mais esperar e partiu dias antes... Já me lembro dele velho. Vinha empoleirado numa bicicleta que era seu principal meio de transporte, com ela rodava quilómetros. Tinha também uma bela charrete de burros que lhe valia para dar conta de todos os pedacinhos de terra. Morava no centro de Quiaios, numa ruelinha bem movimentada cheia de casinhas coladas umas nas outras. Conhecido como Zé Rosa e só, sem outros nomes ou apelidos e casado com Maria Gil, também sem outros nomes. Chegava na Gestinha de bicicleta, queria saber dos netos, do filho perdido por alhures e nos trazia sempre qualquer coisa que fosse para os 3. Também me lembro das cabras, eram muitas e depois de servirem de banquete, em Quiaios viravam um sumptuoso tapete. Assim eram ornadas as casas com tapetes e também com os chifres.
Lembro do seu linguajar com as cabras e com os burros. Às vezes parecia que falava a língua dos bichos e o seu próprio sotaque adquiria aquele vibrato dos sons desses animais que ele lidava. Isso quando conversava connosco. (Quem conhece a recolha de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça, entende do que falo.)
Quando sorria era o meu pai chapado, que por sua vez é meu irmão chapado. Quase se adivinha como o velho era em novo. A última vez que o vi, há uns anos, ainda andava de bicicleta e fazia ginástica diária! Não era uma bicicleta qualquer, era uma bicicleta estática adaptada, era um instrumento moderno mas de spinning do seu tempo: as rodas não chegavam ao chão, flutuavam num adaptador em madeira. Devia ser assim em 1910. A ginástica era feita num corrimão onde se estirava. Todos os dias o velhinho de quase 100 cumpria essa rotina e ainda cuidava de sua esposa há anos deitada no seu leito em "sono profundo". Exemplificou-nos como conversava com a velhinha, como cuidava dela com a dedicação de um eterno Romeu que não se deixou envenenar mas velou sua Julieta até às suas últimas. Na minha cabeça ele iria esperá-la para se despedir, infelizmente esperou demais e ela resolveu resistir mais tempo. Esse homem sim, pode se vangloriar de missão cumprida! Chegou nos três dígitos e ainda cumpriu sua love story até ao fim do seu fim.
Contam-se mais de uma dezena de netos e outra dezena de bisnetos contando com a minha que conheceria este ano. Havia a lenda de que o velhinho guardava muitos marréis e escudos no colchão e era sabido que seu filho fazia fogueiras com suas roupas. Cousas e lousas! Deus o tenha.

PS: Obrigada pelas rosas no nome! Uma herança bonita que o velhinho nos deixou. Eu e meus irmãos formamos um bouquet! (rs)
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
"Uma bebida e um amor sem gelo, por favor". Quero um Porto.
A frase perfeita, nada a acrescentar. Não tive o prazer de achar e ler esse livro mas desde já deixo o meu franco "bem haja" à autora que, como eu, tem as graças de se apelidar em latim "de lirium est", relativo à planta lírio e também à primeira mulher antes de Eva. E é fogo que arde sem se ver, meu Camões bebendo um cálice com vinho, da eterna aliança derramado por alguns e bem degustado por outros. Só quem sabe tomar vinho na temperatura certa, o deve fazer. Caso não saiba, não desperdice esse nectar dos Deuses. A temperatura dos vinhos é um importante fator na determinação do sucesso da degustação pois controla fatores que atuam diretamente na liberação de aromas e na percepção dos sabores. A tradicional norma que "vinhos devem ser servidos à temperatura ambiente" portuguesa, nem sempre é válida, especialmente em países de clima tropical, onde na maior parte do ano existe a prevalência de temperaturas muito elevadas e onde são ainda pouco usuais os ambientes climatizados. Desta forma, deve-se prestar especial atenção às temperaturas de serviço dos vinhos, procedendo-se aos ajustes necessários para se servir os mesmos à temperatura adequada. Em clima tropical o melhor Porto wine, meu "Porto calmo de abrigo", deve ser servido à temperatura ambiente da adega onde repousa graciosamente. Adoro falar de quem amo!
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Un paysan dans les nuages, "um qual carapuça" das gândaras.
Um segredinho, "qual carapuça", é antes algo que só pode ser notado a "olhos vistos" se cair na alçada do povo e se nos lembrarmos de detalhes. Mas certas coisas o povo não quer que a gente saiba. Um dia assisti ao nascimento de dois cabritos, minha mãe foi a parteira, com sua visão de sábia, ela perfurou o saco das águas e os bichinhos nasceram. Depois lembro-me deles andando em cima no murinho estreito do poço de rega perto da eira. Outro episódio igualmente "retalho de minha mente" foi uma galinha poedeira que engoliu demasiado milho de uma vez só vez... A quantidade atravessada em sua garganta impedia-a de respirar, estava sufocando, estava agonizando! Minha mãe ou minha minha avó, uma das cirurgiãs de serviço, abriu o pescocinho do bicho e retirou o excesso atravancado em sua garganta. De seguida fechou o golpe com linha de costura e a ave sobreviveu. Essa ainda pôs muitos ovos mas cacarejar,"lavado seja Deus", isso seria pedir muito. Lembro-me de apanhar morangos verdes do quintal, amoras silvestres, figos no tempo deles, uvas para pisar, ameixas e laranjas. E tanta gente tem um laranjal e passa horas à sombra na conversa e comendo laranjas porque o mais penoso nestas tardes é apanhar batatas num sol escaldante..."Amar a dor" ou "amardor" como queiram chamar a esta preposição gândareza, eis a questão. De vez em quando é bom lembrar certas façanhas.
Diz à terra que não coma as tranças do meu cabelo.
"Aproxima-se o momento em que com a ajuda do fogo subirei éter aquilo a que chamais morrer e que vos enche de terror" assim falava a filha do grande Indra no Sonho de Strindberg. E assim começou.
As idéias começaram a ferver durante épocas de frio e de gelo. Giestas e videiras em flor sempre na minha cabeça. Quando num baile assim sem querer estar ali, um desconhecido que conhece o teu anseio de sair, te convida para dançar e tu sais. Tu sais dali. Sais de repente, sem razão e sem culpa. Não era esse, era outro, pensas sem querer ficar. E eu sigo como se fosse hoje como se fosse ontem e como se o amanhã tardasse e as flores caem, as folhas caem e o mundo se veste de novo com seus vestidos de noite. As oliveiras amadurecem, os seus frutos que rendem o melhor dos nectares se dividem em veios e correm de um rio para o outro.
E assim se começa o dia com um "Ai Solidom" no ouvido."Se passeares no adro - ai solidom solidom
no dia do meu enterro - ai ai ai ai ai
diz á terra que não coma - ai solidom solidom
as tranças ao meu cabelo - ai ai ai ai ai
Ó bonequinha agora agora, ó bonequinha
ó bonequinha agora já
se te apanhasse aqui sozinha, ó bonequinha
dava-te um beijo na carinha,
ó bonequinha, ó bonequinha.
A Oliveira se queixa,
se queixa e tem razão,
que lhe comem a azeitona,
deitam-lhe a folha ao chão." na voz de Dulce Pontes
Para ouvir e se deleitar: http://www.youtube.com/watch?v=_L02bGa9bdA&feature=PlayList&p=3B3E15C53A89F0B9&playnext=1&playnext_from=PL&index=15
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