E ele veio buscá-la. Também me lembro bem dela, lembro da imagem de mulher vivida, austera e meiga o quanto baste. Lembro-me da cozinha cheia de lenha para o borralho e dos mochos de tronco maciço de madeira espalhados pelo cómodo para as visitas se acomodarem. Na Páscoa tinha sempre para oferecer um folar ou umas amêndoas. Ela era o pilar e os alicerces, era quem sustentava a casa para que o velho Rosa pudesse guardar seus tostões - isso diziam as bocas do povo. Meu pai tem os olhos dela, bem escuros e um tanto-quanto tristes. Vivia conforme a vida podia, imagino que em moça sonhasse com belos vestidos, com casas fartas. A sua era humilde mas calorosa e tinha sempre alguma coisa na fogueira a ferver. Dos factos, rodeada de filhos, três filhas mulheres e dois filhos homens, um se perdeu de vista para os lados da França, o outro se isolou desde cedo no seu mundo particular e restaram as três que, como mulheres efectivamente, sempre deram mais valor à progenitora guerreira.
Ele se foi no dia 8, ela se foi no dia 26, entre as duas idas vão apenas 18 dias. Para quem crê, ele foi primeiro e veio buscá-la depois, para a libertar da convalescência. Assim dizem, os que crêem, que os mortos voltam para buscar as pendências. Por outro lado, ela pode também ter esperado o limite dele para poder descansar. Um estava dependente do outro e esse vínculo era muito profundo. Quando a vi pela última vez, cativa do sono, ela respondia quando o velhinho Rosa gritava o seu nome. Não se sabe por que artes caiu numa cama assim de uma vez, como foi, desde quando e porquê...apenas que estava doente e foi ficando e foi se entregando inerte àqueles anos... e anos de convalescência. Ali foi ficando e foi envelhecendo mais ainda, velada sob o olhar cuidadoso do velhinho Rosa. Afinal Shakespeare não escrevia apenas mitos, toda a história de amor tem um fundo real e atemporal.
Marias portuguesas sempre foram mulheres fortes e austeras. Se eu pudesse compará-la com a minha outra avó que nem conheci (em comum o nome Maria) lhes dedicaria uma música de Zeca Afonso que tem tudo a ver com elas:
"As sete mulheres do Minho, as sete mulheres do Minho
Ele se foi no dia 8, ela se foi no dia 26, entre as duas idas vão apenas 18 dias. Para quem crê, ele foi primeiro e veio buscá-la depois, para a libertar da convalescência. Assim dizem, os que crêem, que os mortos voltam para buscar as pendências. Por outro lado, ela pode também ter esperado o limite dele para poder descansar. Um estava dependente do outro e esse vínculo era muito profundo. Quando a vi pela última vez, cativa do sono, ela respondia quando o velhinho Rosa gritava o seu nome. Não se sabe por que artes caiu numa cama assim de uma vez, como foi, desde quando e porquê...apenas que estava doente e foi ficando e foi se entregando inerte àqueles anos... e anos de convalescência. Ali foi ficando e foi envelhecendo mais ainda, velada sob o olhar cuidadoso do velhinho Rosa. Afinal Shakespeare não escrevia apenas mitos, toda a história de amor tem um fundo real e atemporal.
Marias portuguesas sempre foram mulheres fortes e austeras. Se eu pudesse compará-la com a minha outra avó que nem conheci (em comum o nome Maria) lhes dedicaria uma música de Zeca Afonso que tem tudo a ver com elas:
"As sete mulheres do Minho, as sete mulheres do Minho
Mulheres de grande valor, mulheres de grande valor
Armadas de fuso e roca, armadas de fuso e roca
Correram com o regador, correram com o regador
Que da foice fez espada, que da foice fez espada
Há-de ter na lusa história, há-de ter na lusa história
Uma página doirada, uma página doirada
Viva a Maria da Fonte, viva a Maria da Fonte
Com as pistolas na mão, com as pistolas na mão
Para matar os cabrais, para matar os cabrais
Que são falsos à nação, que são falsos à nação."
Deus a tenha e não será esquecida! Mais uma vez eu e meus irmãos ficámos esquecidos, ninguém nos avisou a tempo de nos despedirmos dos nossos avós! Ninguém se lembrou que somos netos. Eu nem podia ir me despedir porque me encontro exilada neste trópico, mas meus irmãos poderiam prestar a última homenagem por mim. Deixar um beijo, um abraço, uma lágrima que fosse.
Deus a tenha e não será esquecida! Mais uma vez eu e meus irmãos ficámos esquecidos, ninguém nos avisou a tempo de nos despedirmos dos nossos avós! Ninguém se lembrou que somos netos. Eu nem podia ir me despedir porque me encontro exilada neste trópico, mas meus irmãos poderiam prestar a última homenagem por mim. Deixar um beijo, um abraço, uma lágrima que fosse.
E assim foi, em Abril, juntos e de mão dada, se libertaram os veios fortes das velhas raízes da nossa árvore genealógica paterna e partiram para um lugar melhor. Olham por nós de lá de cima.




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4 comentários:
Gostava de conseguir perceber, por que razão e ou razões o nosso pai diz alto e em bom som que a filha do Brasil foi avisada, ... será que o Brasil é já alí ou além de o ter-mos descoberto, agora situa-se em Portugal. Fica sem dúvidaa a boa vontade, não fôssemos nós buscar uns "merreis"!! Beijo grande para a minha mana e sobrinha queridas.
Sandra ROSA
Olá maninha rosinha! Cousas e lousas, é tudo no salve-se quem puder, um Deus m´acuda! Nunca entendi essas questões e não vai dar para entender é nunca! "The big face book" é um mistério ainda por descobrir, é um novo trópico! O paizão anda como pode e está perdoado...uns marréis a mais ou a menos para mim não adianta nada, estou numa de cair no real, e a realidade é outra!lol Riqueza de espírito é um bem maior, isso eu quero que venha escrito no testamento em meu benefício! Uma herança boa e digna!
Beijinhos para ti, para os meus sobrinhos lindos e para o João e toda a família...rosas e sabonetes de aroma de rosas!
Sou irmão de outra espécie, outra árvore, talvez até desconhecida por mim. Mas deixo aqui minha prece e lágrimas (felizes, que se diga) pela beleza textual do que é tão real e profundo - esse amor de outro mundo...
Parabéns e grato
É muito bom receber elogios, se vierem da boca de um poeta é algo grandioso e ainda mais porque sou fã de sua escrita!
Amigo Aluísio, seu blog é um pequeno paraíso dos sentidos!rs
Beijos e muito grata pela suas visitas.
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