Tenho saudades de um bom café português, uma bica lisboeta, um simbalino tripeiro...ambos expressamente dourados no topo. Tirado em segundos para ser adorado na hora certa! Aqui é expresso também o seu valor mas não tem a doçura dos nossos diretos da bica a cem à hora, embora a matéria prima pura seja daqui e de além de outros pares de pés de irmão trópico. Um dia me acusaram de acordar com ele. Deu até em divorcio entre o que se disse e o que se fez, eu continuei amante louca a tomá-lo para mim e por aí. Não acordo sem ele nem ele se aquece sem mim, somos inseparáveis, estamos juntos a toda a hora e em qualquer lugar.Sem a sua velha e quadrada geringonça portuguesa, ele aqui é coado como se coava no tempo de nossos avós: A água ferve e o pó é lançado em ebulição para a fusão ser perfeita, ouve-se o espasmo do líquido e da erva sólida subindo pelo metal e zás, está pronto a ser passado no coador direto num copo alto de vidro. A ciência perfeita de um cálice quente e sedutor para dias frios no trópico.
Lá ele só se dá como amante a máquinas bem quadradas e quanto mais velhas mais perfeito o licor quente. Minha mãe tinha uma bem antiga, servia cem cafés por hora na chávena branca, lembro-me do queimar os dedos de a manobrar. Vinham gentes de todos os lados para tomar aquele néctar! Eu ficava a olhar quantas vezes a minha mãe queimava os dedos ao tirar bicas e mais bicas... O aroma era o melhor do mundo e o sabor eu conhecia-o de outras bandas, do leite grosso de vaca com cevada preparada assim num arcaísmo gostoso exatamente como aqui hoje, neste trópico, se prepara o café. A diferença é que os nossos cafés feitos nesse ritual eram em tempos de fervura na fogueira.
A máquina foi substituída por uma nova que já estava apetrechada com uma pecinha que salvava o dedo e nada mais poderia sustentar aquele calo de anos e anos de "Café Lena". O sabor mudou e as gentes mudaram, o lugar mudou e hoje já nem existe no Alto do Forno.
Voltando à fogueira que desejo agora e aqui no núcleo do Rio de Janeiro porque o frio não perdoa e eu sou um ser nato no gelo que só se dá no calor...uma fogueira também tem os seus segredos e as últimas que acendi não fizeram café mas fizeram meus dias felizes do lado de lá do mar. Primeiro há a escolha da lenha e das pinhas, tudo tem de estar bem seco por um sol de meio-dia. A madeira no ponto de ser sacrificada, as pinhas enceradas pelo tempo e fecundadas com alguma resina para acender melhor a chama na hora do fósforo. Um pote de resina faria milagres e eu gostava de ver a resina das árvores escorrer como mel. Há muito que não se vê os resineiros nem os potes de resina fresca que os fazia vaguear pelos pinhais e sobre o assunto escrevi uma vez "a resina fresca ainda cola os nossos corações ao corpo". Lembro-me que as árvores eram golpeadas de um lado e de outro e eram colocados coletores de resina abaixo do rasgo. Do formato de cones pretos e como morcegos, eles sugavam o sangue-lágrima das árvores de pinhas. A fogueira era do dia a dia e o café também, as duas ordens do dia de cada dia. LR



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2 comentários:
Quando vieres a Portugal ...haverá cafeína dourada à espera !
Olá minha querida, muito obrigada! Espero sim muita cafeína dourada!Tomaremos um café, então amiga!
Beijinhos e tudo de bom!
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